sábado, 22 de janeiro de 2011

Tudo que restar



Um palito do incenso “kamasutra – homem” estava aceso. O quarto emanava aquele aroma gostoso de prazer. Um prazer tranquilo e intenso. O garoto estava deitado na cama com seu violão ao lado. Alisava-o, como se fosse um animal de estimação. No cinzeiro ao lado do violão, em cima da cama, saia fumaça da ponta do beck que o garoto enrolará haviam poucos segundos. Ele olhava o teto, alisava o violão e sentia o cheiro do incenso misturado com o cheiro da cânabis. Seu peito se enchia e seus olhos piscavam, várias vezes, era seu toque, seu defeito; O garoto piscava mais do que devia. Ou talvez fosse porque tudo que ele via, e sentia, e fazia, era mais intenso do que deveria ser. Com a mesma mão que agora a pouco alisava o violão, pegou o baseado no cinzeiro, colocou na boca e largou a mão ao lado do corpo. Tragou lento e longo, tossiu e segurou o beck de novo, respirou o incenso e a marola, botou na boca mais uma vez, tragou direito; com jeito; colocou de novo no cinzeiro e soltou a fumaça pra cima. Jogava a fumaça pra cima como se jogasse perfume no quarto. Enquanto jogava a fumaça mantinha os olhos bem fechados, sentia a fumaça saindo de sua boca como se aquele fosse seu poder. Aquilo podia fazer tudo ficar bem. Era sua mágica. E quando abriu os olhos piscou, piscou umas dez vezes seguidas. Observou a fumaça se desfazendo e suspirou. Suspirou pela mágica que sumia, as coisas ficavam ruins de novo. Alisou o violão mais uma vez. Piscou mais trezentas vezes e decidiu que era hora de amar, porque a bebida já tinha acabado e aquele era o último beck que poderia comprar com sua mesada.

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