sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sunshine


Eu te odeio quando você não chega, e quando você vai embora. E odeio quando você me olha com aquela expressão de “Sinto muito”, mesmo que por pouca causa. Odeio que você tenha de sentir muito por mim. Odeio ter que te perdoar. Porque odeio quando você erra. Eu odeio, mais ainda, quando você finge que tá tudo bem, depois de eu ter estragado tudo. Você vem com aquele sorriso de domingo de manhã e me conquista tão fácil, me faz pensar que já tá tudo bem, mas ainda é sábado à noite e eu acabei de fazer uma grande besteira. Você ignora, finge que não, e passa a tarde inteira me dando aquele sorriso maravilhoso e parando algumas vezes pra olhar o vazio e pensar “puta merda, o que eu faço agora?”. Me beija. Isso que tu devia fazer agora. Me beijar e perguntar porquê eu fiz tal idiotice contigo. E eu vou te beijar o dobro do que tu me beijou, e vou odiar cada segundo daquilo, porque muito mais do que odiar quando você tem que me pedir desculpas, eu odeio quando eu é quem tem que pedir desculpas. Odeio me desculpar contigo, porque odeio ter motivos pra isso. Odeio estragar tudo. E eu estrago tudo sempre. Eu sei. Mas odeio. Esse teu olhar me dizendo “calma, meu amor” que tá tudo bem, que vai ficar tudo bem, que não importa, que foi só uma besteirinha. E eu acumulando besteirinhas até o momento em que essas besteirinhas podem transformar-se em um monte de besteirinhas e uma avalanche, talvez, de besteirinhas, acumuladas, destrua nosso relacionamento. Destrua esse sorriso de manhã no teu rosto. Destrua o verão no meu sorriso. Destrua tua cara de preguiça falando que quer beijo. Destrua minha cara de quem te odeia quando você demora.  Eu odeio que você demore pra chegar, eu odeio quando você vai embora. Mas eu só espero que você chegue, e que se for, volte.  Sempre volte. E volte com seu sorriso de manhã e seu cheiro de verão, pra completar meu sorriso. 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Passos.

Não sabia mais direito se continuava andando ou parava no meio do caminho. Que diferença faria parar ali ou continuar? Não havia nada no final da rua. Só mais rua. E mais. Até chegar em casa. Onde também não haveria nada. Pensou em parar na banca do outro lado da rua e comprar um cigarro. Mas - merda - não sentia mais vontade nenhuma de fumar. Nem por um segundo. Na verdade, só a ideia de fazê-lo já lhe embrulhava o estomago. Andou em passos mais lentos e meteu a mão no bolso da calça jeans, tirou de lá um isqueiro que nunca mais fora usado pra outra coisa que não fosse acender incensos e uma boca do fogão que não funciona direito, e uns cinco reais em moedas. Pensou em comprar um refrigerante e um salgado na lanchonete da esquina, mas tinha muito homem mal encarado. Enfiou tudo de volta no bolso e pisou fundo, decidida a seguir caminho. O plat plat do seu sapato na calçada da rua irritava seu ouvido. Faltava um som ali.
Plat plat plat plat. Should be. E atravessou a rua. Sem ouvir outros passos ao seu lado. Porque não havia ninguém ao seu lado. O verão tava lindo no céu, no ar. Calor batendo seu rosto, um vento bem leve tocando a pele. E o plat plat, sozinho, atravessando a cidade inteira. Enquanto ela queria falar da vida, contar do dia, e segurar a mão, do plat plat ausente naquela manhã.


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

She calls my name.

Se fosse algo que saísse da minha boca e conseguisse tocar o céu, valeria a pena. Se minhas palavras não fossem só pairar no ar bem na minha frente e depois despencar próximas dos meus próprios pés fazendo com que, quando eu tentar me mover, pise nelas e deixe-as desgastadas e pisoteadas no chão. Droga! Se minhas palavras fizessem efeito, se fossem suficiente. She speaks in tongues, the words they come undone. E eu realmente queria que você conseguisse ouvir minhas palavras daí, d'onde você tá. Coloco mais uma música que não me faz sentido pra tocar no rádio de pilha e espero o SOL CLAREAR O QUARTO INTEIRO. 
To precisando de luz porque se dormir sem você nesse breu já é triste, acordar nesse breu sem você é um pesadelo. And when she wakes in her fragile state, well, she calls my name hoping that I keep her safe.


Inspiração e citação: City and colour - Fragile bird.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

"Não conheço mentira mais abjeta do que a expressão com que se aliciam as crianças: “Mente sã em corpo são.” Quem disse que uma mente sã é um ideal desejável? “Sã” quer dizer, neste caso, tola, convencional, sem imaginação e sem malícia, arrebanhada pelos estereótipos da moral estabelecida e da religião oficial. Mente “sã”, isso? Mente conformista, de beata, de tabelião, de securitário, de coroinha, de virgem e de escoteiro. Isso não é saúde, é tara. Uma vida mental rica e própria exige curiosidade, malícia, fantasia e desejos insatisfeitos, isto é, uma mente “suja”, maus pensamentos, floração de imagens proibidas, apetites que induzam a explorar o desconhecido e a renovar o conhecido, desacatos sistemáticos às ideias herdadas, aos conhecimentos manipulados e aos valores em voga."

— Mario Vargas Llosa - retirado do livro “Os cadernos de dom Rigoberto”.