terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ao visitante

Entrar assim de repente,
como se fosse perfeitamente natural
usar a porta da frente,
recolher o jornal,
destravar o cadeado,
passa muito longe do que foi combinado.
Não é bem assim:
não lhe cabe regar as bromélias do jardim,
alimentar o canário,
maltratar o cão,
rondar a geladeira, escolher a refeição,
cochilar na rede da varanda
como se fosse sempre final de sexta-feira,
abusar do meu frasco de lavanda.
Evite o telefone, não responda à campainha,
deixe no lugar a escova que é só minha,
o roupão de banho, as meias de lã.
Ao se retirar, apague a luz do abat-jour cansado,
mantenha o marcador no livro começado,
esconda a chave da gaveta de segredos.
Mas ao voltar amanhã, por favor, chegue mais cedo.

Flora Figueiredo, Chão de Vento.

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