segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Incoerência reflexiva


Hoje estou leve. Tão leve quanto uma folha caindo no Outono. Mas não é Outono. A primavera entrou pela  janela de minha casa essa tarde, quando cheguei da escola, senti aquele calor imenso invadindo cada comodo da sala e tratei de abrir todas as janelas que ainda não estavam abertas. Enchi minha casa com cheiro dos incensos que mais amo e, tomando um copo bem gelado de água, pensei no como é boa - boa, boa, boa - essa sensação de leveza. De que não esta vazio, mas nada pesa demais. Nenhum comodo da minha casa é vazio. Nenhum espaço. Nenhum canto. Mas nem todos os lugares dela estão ocupados. E então, nessa incoerência reflexiva, passei a pensar no vazio.

Imagine-se entrando na casa que você acaba de comprar do antigo dono. Uma casa vazia. Sem móveis. Sem pessoas. Sem música. Você abre a porta e entra nos quartos, conhece os cantos da casa e confere que não há nem um inseto vivendo no local.
Mas ainda há, no final do corredor, uma última porta. Você dá seus últimos passos receoso, esperando que sua teoria do vazio se confirme e, ao abrir a porta, percebe que há um ventilador no teto do quarto, ligado.

A casa está vazia, mas há uma presença nela. Alguém esqueceu de desligar um ventilador. Alguém deixou o processo de vazio inacabado. Talvez alguém tenha esquecido de apagar as luzes, tirar o lixo, varrer a casa...

Se o morador anterior esqueceu de fazer algo assim, a casa não está mais vazia, e ela fica pesada.
A casa fica pesada, porque a partir do momento que você entra na sua nova casa, você espera por algo pronto pra ser seu. Algo novo, e se não novo, reformado, bonito, vazio. Pronto pra armazenar todas as suas coisas, sentimentos, brigas, segredos, promessas. A casa precisa estar preparada, vazia, leve. E quando ainda há a presença, mesmo não habitando mais ninguém, pesa.

Hoje estou leve. Tão leve quanto uma folha caindo no Outono. Mas não é Outono. A primavera entrou pela  janela de minha casa.

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